terça-feira, 22 de outubro de 2013

Amados, segue uma reflexão que escrevi numa mescla de romance e ficção e que nos faz pensar sobre uma das coisas mais importantes desta vida. O texto é curto, mas faz pensar. Boa leitura!

Ao encontro do ápice.


     Pensamentos tortuosos minavam minha alma.   Não sabia mais o que fazer ante aquela situação. Por que eu? As indagações não tinham uma resposta satisfatória e na medida em que o tempo avançava, elas tornavam-se cada vez mais insignificantes. A verdade era que me indagando eu tentava desviar a atenção dos apelos vorazes das trevas.  O que fazer?   Aquele ambiente pintava em minha mente um  quadro terrível dos tempos inquisitoriais.  Esforcei-me ao máximo para não pensar nisto, porém como fugir daquele cenário repleto de tochas e moveis inspiradamente medievais?    Doze cadeiras suntuosas artesanalmente esculpidas  em madeira nobre com acabamento levemente aveludados na cor rubra, circundavam
uma mesa com superfície  de mármore  branco ao centro e detalhadamente acabado em mármore negro nas bordas. Sua base refletia, ao brilho das tochas, reflexo bastante parecido ao ouro.  Não sei ao certo, mas havia gravuras que formavam uma espécie de dragão com quatro cabeças entre abertas para darem sustentação a tal mesa. Apesar da luz que emanava das tochas, não dava para descrever as pinturas dos quadros que decoravam as paredes embora suas largas molduras deixavam um tom de bronze no ar. A frieza do local era fúnebre. Meus pés descalços sobre aquele piso marmorizado branco já começavam a doer de tanto frio. Havia no centro da sala ao alto, no teto, uma cúpula branca digna das catedrais góticas.  Todo aquele ambiente carregado  de ornamentações  embaralhavam  minha cabeça e aceleravam, cada vez mais, as batidas  de meu coração. Como descrever aquele calafrio que se espalhava pelo meu corpo? Se eu pudesse fazer algo, mas como fugir se meus tornozelos e mãos estavam presos a aquelas apertadas cadeias? ...
     Não sei quantas horas já haviam se passado.   O barulho da cúpula denunciava uma chuva muito forte que caia.  O frio intensificava e o desgaste físico e mental me abatia.   Não tinha mais esperanças  de ver o mundo lá fora novamente. Tudo agora, para mim, era uma questão de tempo.  Tentei pensar em algo fora daquele contexto, mas era impossível...
     Repentinamente a porta central se abriu e quase perdi o fôlego de susto. Eram vários deles, com roupas talares pretas e cabeças encapuzadas. Não havia som de passos, eles andavam com os pés descalços em passos curtos e calmos.  Aos poucos foram tomando suas posições e sentando-se cada um em uma das cadeiras que ali estavam. Então, um deles veio até mim e disse: Você está preparado para o ápice?
    Meus lábios trêmulos quase que não proferiam algo compreensível, mas disse: O que vocês farão  comigo? Ele, sem hesitar respondeu: Vamos entregá-lo ao desconhecido. Sem que eu pudesse me defender eles abriram minhas cadeias e num impulso de adrenalina e medo comecei a gritar por socorro. Sem que pudesse reagir me amordaçaram, e despindo-me, puseram-me deitado sobre a aquela mesa gélida. Não sabia o que fazer. Por fim vi aquela mão erguida empunhada de um punhal  a  me  golpear. Com os olhos fechados me tranquei dentro de mim.   Não houve dor, mas um grande estrondo soou e me fez despertar em plena madrugada. Uma grande tempestade caia lá fora e os trovões esbravejam seus sons pelos céus da minha cidade. Ainda sem reflexos e completamente soado, respirei fundo e senti o cheiro da chuva a entrar pelas narinas. Num impulso de crença me pus de joelhos ao lado da cama e agradeci a Deus por me livrar de tamanho pesadelo. Naquela madruga uma pergunta mudou minha forma de ver a vida: Estamos prontos para a morte?


Alexandre Nascimento

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